sábado, 13 de junho de 2009

Os Bancários, a Crise do Capitalismo e a Campanha Salarial




Agnaldo Matos*


Os trabalhadores brasileiros, particularmente os bancários, têm um compromisso com a história de luta da classe operária internacional, seja pela afirmação dos seus princípios seculares, seja pela reafirmação do seu propósito de ir à luta para defender seus interesses imediatos e estratégicos, pois a campanha salarial nacional dos bancários 2009 ocorrerá em meio a uma crise estrutural do modo de produção capitalista, na sua versão mais aguda desde a depressão de 29. É neste contexto que a sanha capitalista dos exploradores é aguçada ao limite da intolerância.


Essa grave crise econômica e financeira desencadeada a partir dos Estados Unidos desde agosto de 2007, com o chamado crash do subprime - que alcançou o seu ponto culminante um ano depois com a falência do Banco de Investimentos Lehman Brothers - afetou profundamente os EUA, espalhou-se pela União Européia, Federação Russa e Japão, chegando até à China, Índia e vários países asiáticos. Apesar de estar menos vulnerável aos efeitos imediatos da crise, o Brasil já vem sofrendo conseqüências dela decorrentes.


Podemos ilustrar estas conseqüências com o exemplo da fabricante de vagões ferroviários Amsted-Maxion que demitiu cerca de 1.500 operários nas cidades paulistas de Osasco, Hortolândia e Cruzeiro, infringindo a legislação ao incluir entre os demitidos trabalhadores que têm estabilidade ou que sofreram doenças ocupacionais e acidentes de trabalho. O presidente da Fiesp, Paulo Skaf, declarou que para combater o desemprego a única saída seria a redução da jornada de trabalho em 20%, com a respectiva redução de salários.


Outro vergonhoso exemplo que podemos nos referir é sobre a chantagem nítida do caso da Vale, a empresa teve nos dois últimos anos lucros líquidos estratosféricos: 13,4 bilhões de reais em 2006 e 20 bilhões em 2007. A Vale é ré num crescente número de processos trabalhistas (que já supera oito mil ações, incluindo as empresas terceirizadas!) na Justiça do Trabalho do Pará. Isto para não citar os bancos brasileiros e estrangeiros que aqui operam, com lucratividades crescentes sobre a tutela do Banco Central e do Congresso Nacional brasileiro, e a Embraer que acaba de anunciar a demissão de mais de quatro mil trabalhadores, sem justificativa plausível.


Tudo isso fundamenta a forte percepção de que demissões e pretensões patronais de eliminar direitos trabalhistas não passam da costumeira chantagem destes contra os trabalhadores. O governo que sinalizou que não vai se envolver nesta questão mas deixá-la para a negociação entre patrões e trabalhadores. O Estado não pode se eximir de suas responsabilidades de mediação social. Precisamos reagir com firmeza.


Devemos contribuir para amplificar as críticas ao neoliberalismo: denunciar o imperialismo dos EUA e suas guerras e tratados neocoloniais; desmascarar a ditadura midiática; reforçar a resistência dos povos e colaborar na busca de alternativas. Ao mesmo tempo devemos fazer uma conexão da luta social em geral com a luta política progressista em nosso país.


O capitalismo, aclamado por muitos como “fim da história”, entrou numa grave crise, derrubando a tese da “eficiência do mercado”. Nunca ficou tão evidente a necessidade da participação do Estado no desenvolvimento das sociedades, contrariando as “velhas” teses liberais. O socialismo, que os apologistas do capital consideravam “morto”, permanece como perspectiva. O imperialismo estadunidense, que se considerava imbatível, entrou em declínio. A resistência dos povos ganhou força, seja na insurgência do povo Iraquiano ou na seqüência de vitórias progressistas na América Latina. O mundo hoje, com seus ziguezagues e armadilhas, não vive mais a “paz de cemitério” do pensamento único neoliberal.


O enfrentamento a essa grave crise do capitalismo, está diretamente associado à resistência tática evitando que seu ônus seja jogado nas costas dos trabalhadores. A luta contra a guerra imperialista (seja a patrocinada pelos sionistas em Gaza ou pelos ianques no Iraque e Afeganistão); as jornadas contra a devastação, e pela soberania da Amazônia; pela redução da jornada de trabalho (políticas de valorização do trabalho e dos trabalhadores como forças motrizes da produção); pelas reformas progressistas, como a educacional (para a eliminação imediata do analfabetismo no Brasil) e a reforma agrária; poderão alavancar e dar um novo destaque às lutas dos trabalhadores neste momento particular.


Diante disto, avaliamos que na próxima campanha salarial o primeiro desafio será nos colocarmos numa posição ofensiva. Os banqueiros virão com um discurso de que a crise será empecilho para garantirem os nossos direitos, quando na realidade mantiveram margens de lucro em alta, basta ver os Resultados do Bradesco (7.620 bilhões – 2008), Itaú-Unibanco (10. bilhões – 2008), CEF (3.9 bilhões), o BB (8.803 bilhões) , Santander-Real (3.8 bilhões), HSBC (1.350 bilhões), e assim por diante.


Nesta perspectiva, não há qualquer justificativa para redução de postos de trabalho ou de direitos. A postura da FIESP deve ser rechaçada com vigor.


A categoria, no geral, saiu vitoriosa da campanha salarial 2008, com uma margem de aumento real no salário e na participação dos lucros. Fato reconhecido até pela grande mídia em razão da conjuntura adversa, recheada de incertezas na economia mundial. Tiramos lições no campo organizativo, construímos uma tática de mesa única (geral – com a FENABAN), com a realização de mesas de negociação específicas nos bancos públicos (BB, CEF, BNB e BASA).


Sublinhamos, entretanto, resistências de determinados setores da direção do movimento em fortalecer as mesas específicas e levar o funcionalismo destes bancos a avançar em suas conquistas, o que levou a criar ruídos com o segmento da categoria dos bancos públicos. Nosso potencial de mobilização na categoria não foi totalmente explorado pois, havia combustível a queimar em termos de mobilização.


* Agnaldo Matos é bancário do Santander, diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia, e como educador atua na área de Formação Sindical e Política.

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