quarta-feira, 8 de julho de 2009

De frio e de pobreza


Eduardo Navarro*


Neste último fim de semana, impossibilitado de participar da Conferência da Bahia e Sergipe, estive na 11ª Conferência dos Bancários de São Paulo. Era uma manhã fria de um sábado de inverno. Duzentas e poucas pessoas se acotovelavam no pequeno auditório, um público pequeno para uma base sindical com mais de cem mil trabalhadores. Duas coisas me chamaram a atenção. A primeira, o frio dos debates era mais intenso que o clima lá fora. Não havia empolgação na platéia e nem na defesa das reivindicações a serem levadas à Conferência Nacional. Foi, por assim dizer, em minha opinião, uma conferência protocolar.


O segundo fato refere-se a pobreza dos argumentos utilizados pelos principais oradores. Foi de uma pobreza franciscana. Dois argumentos me chamaram muito a atenção: perdas salariais e metas abusivas.


A justa reivindicação de reposição das perdas salariais históricas do período de 1994 até o momento não se refere às perdas individuais como argumentava o orador. Refere-se, sim, ao achatamento salarial coletivo que mais de 100 mil trabalhadores e trabalhadoras dos bancos públicos tiveram durante os oito anos do governo FHC. Este achatamento atingiu cada trabalhador e cada trabalhadora de forma particular, porém comprometeu também o contrato coletivo de trabalho ao nivelar os salários por baixo quebrando desta forma a estrutura de PCS das instituições financeiras públicas. A lógica dos tucanos foi preparar o desmonte destes bancos para a privatização, oferecendo-os a preço de mercado.


Já sobre as metas abusivas, o Frei orador repetiu como uma ladainha que todos temos metas na vida a serem cumpridas, portanto que não era absurdo que os bancos também os tivessem, a questão seria estipulá-las de comum acordo e ter mecanismos de aferição. A questão não está na forma, ter ou não metas pessoais, e sim no objetivo destas metas. Individualmente planejamos metas para atingirmos objetivos que consideramos positivos para nós mesmos e para quem nos cerca. Já as metas dos banqueiros são para arrancar o máximo de produtividade de seus funcionários a um salário cada vez menor. Portanto, são objetivos irreconciliáveis. O plano de metas, abusivas ou não, são instrumentos de maximização do lucro, ela é prima-irmã do assédio moral. Não seremos nós que iremos determinar o nível de exploração dos bancários e bancarias. Como exemplificou Michael Burawoy, em seu texto “A Transformação dos Regimes Fabris no Capitalismo Avançado”, o sindicato seria o fiscal de tempo e movimento, armado com seu cronômetro para vigiar os trabalhadores na realização de suas tarefas.


Quanto ao frio da empolgação é aguardar setembro chegar para ver se a mudança do clima e a participação da categoria animam a direção sindical. Quanto aos argumentos, estes não têm jeito, o que precisa mudar é a convicção política dos oradores.


* Eduardo Navarro é bancário do Bradesco, vice presidente da Federação dos Bancários da Bahia e Sergipe, coordenador do Ramo Financeiro e diretor Financeiro Adjunto da CTB.

2 comentários:

Diógenes Pacheco disse...

Lamentável.

Alex Livramento disse...

Poxa Eduardo, poderia ao menos ter lembrado que alguns guerreiros estiveram na batalha e defenderam firmemente seus propósitos, como os camaradas da CTB e os companheiros da Intersindical.

Mais vistos

Arquivo

  ©Template by Dicas Blogger.

TOPO