sexta-feira, 3 de julho de 2009

Em Busca do Tempo Perdido


Eduardo Navarro*


“Isso tudo acontecendo e eu aqui na praça,

dando milho aos pombos.

Entra ano, sai ano, cada vez fica mais difícil

o pão, o arroz, o feijão, o aluguel...”

(Zé Geraldo)


Este é o sentimento que tenho enquanto se aproxima a campanha salarial 2009. Um sentimento de completo alheiamento da realidade que nos ronda. O mundo está se desintegrando lá fora e nós, aqui dentro, só pensando em questões menores.


Pois bem, vamos aos fatos. Estamos vivendo uma quadratura histórica com uma profunda crise do capitalismo que questiona, inclusive, sua forma e seu modo de gestão(1) ao transformar a economia mundial em uma grande “Ciranda Financeira” (quando o capital especulativo domina o cenário se sobrepondo ao capital produtivo) – crise esta patrocinada e tutelada pelos grandes bancos privados nacionais e internacionais – e nós, nos limitando a discutir reposição salarial e PLR maior.


Penso que deveríamos aproveitar o momento de ebulição e efervescência da campanha salarial para debater com a sociedade sobre qual o papel que os bancos devem ter na economia nacional. Indutor do desenvolvimento nacional ou mero especulador? A resposta a este questionamento determina o grau de comprometimento com as mudanças que nosso país necessita, e a seriedade do debate e dos debatedores.


Repor inflação é justo e válido, colocar R$ 1.000,00 a mais no bolso também é salutar. Porém, não podemos rebaixar a capacidade de organização e mobilização de uma categoria de rabalhadores e trabalhadoras – que já demonstrou sua disposição de luta - apenas pela barganha de um percentual de reajuste ínfimo, que após um período de greve soa até como derrota.


Devemos ousar mais, colocar como questão fundamental a reconstituição de nosso contrato coletivo de trabalho que envolve o respeito pela jornada de trabalho de 6 horas; a constituição de um plano de cargos e salários (PCS) que permita vislumbrar a progressão da carreira, e uma remuneração condigna para as atividades desenvolvidas. Com esta tríade – jornada justa, progressão na carreira e remuneração digna – daremos passos largos rumo à reconstrução da identidade bancária.


Outra agenda dos trabalhadores e trabalhadoras que não pode ser relegada a uma decisão burocrática – tipo mesa permanente – é a relacionada à saúde. Saúde está relacionada com as condições de trabalho no que tange à prevenção de doenças ocupacionais, bem como das formas e tratamentos para sua remediação. Outra faceta do problema relacionado à saúde, esta mental, que precisa ser erradicada do local de trabalho pelo movimento sindical é o Assédio Moral(3).


O assédio moral é um instrumento de gestão para obtenção ou superação de metas e resultados que leva ao adoecimento físico e mental daqueles que estão na base da pirâmide funcional. É a retirada da mais valia relativa e absoluta. É o esmagamento do trabalhador pela extensão da atividade, pelo controles da tecnologia aliada à pressão pela produção. Como no filme “o homem que virou suco”, o trabalhador é jogado na cesta de lixo após retirar todo seu suco produtivo.


Nem tudo está perdido, ainda temos tempo de dar uma virada nesta campanha salarial e, como no romance de Marcel Proust, ir “Em Busca Do Tempo Perdido”.


* Eduardo Navarro é bancário do Bradesco, vice presidente da Federação dos Bancários da Bahia e Sergipe, coordenador do Ramo Financeiro e diretor Financeiro Adjunto da CTB.


(1)Esta forma de gestão – conhecida como Neoliberalismo – teve como função retirar a presença do Estado da economia para ampliar a margem de lucro do capital. Porém o que se viu foi uma sanha privatista que liquidou com o patrimônio nacional e abalou os alicerces da economia brasileira e internacional.


(2) Com indutor cabe discutir política creditícia para indústria, agricultura, habitação e consumo; regulação da taxa de juros; enraizamento da rede de agencias em todo território nacional; caixa do erário público, dentre outras questões.


(3) O que por si só não encerra a gama de sofrimentos mentais oriundos do modelo de gestão como depressão, psicoses, alcoolismo, alterações comportamentais, e mais uma infinidade de acometimentos.

2 comentários:

jorge silva de oliveira disse...

CONCORDO COM AS INFERÊNCIAS DO NOBRE E ESTIMADO SINDICALISTA, TODAS PERTINENTES AO MOMENTO ATUAL VIVIDO PELA CATEGORIA BANCÁRIA, ENTRETANTO PARA SE TORNAR VIÁVEIS É PRECISO COMBINAR COM A CORRENTE SINDICAL DOMINANTE, QUE AO LONGO DOS ÚLTIMOS DEZ AOS, TEM IMPOSTO A SUA VONTADE POR DETER A MAIORIA DE AFILIADOS, E QUANDO PRECISA COMPRA O APOIO DAS DEMAIS CORRENTES COM CARGOS NO ATUAL GOVERNO.
JORGE SILVA DE OLIVEIRA

Diógenes Pacheco disse...

O comentário acima diz tudo. Não adianta pensarmos um passo adiante se eles nos travam um passo atrás.
No link abaixo há o ótimo texto de Emanoel Souza, publicado recentemente no jornal dos bancários da Bahia (O Bancário), e que traduz bem o que me parecem ser nossas maiores fontes de preocupação hoje. Sem resolver isso, o resto fica praticamente impossível. http://www.bancariosbahia.org.br/2009/index.php?menu=artigo&COD_ARTIGO=25

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