sábado, 5 de setembro de 2009

E os trabalhadores não ouviram o recado dos patrões e do governo.


Marcão Lima(*)

Em virtude da badalada crise mundial do capitalismo o presidente Lula e até alguns dirigentes sindicais descrentes na garra dos trabalhadores aconselhavam que as categorias profissionais se contentassem com reajustes salariais mínimos e até abaixo da inflação.

Mas os trabalhadores, talvez por algum problema de audição, decorrente de lesões por esforço repetitivo ou por pura birra, foram à briga e conquistaram no primeiro semestre deste ano condições ainda mais favoráveis que as do mesmo período em 2008.

O Presidente Lula afirmou, em maio deste ano, que deveríamos contribuir para que as empresas vendessem mais e que isso seria mais importante que ter reajustes. O quadro sombrio do mercado de trabalho na época, com o crescimento do desemprego e estagnação da massa salarial, parecia justificar a recomendação do presidente.

Em Maio, o nosso querido DIEESE, órgão de assessoria dos trabalhadores, também disse o mesmo. Segundo o diretor técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, “Será um ano difícil e com poucas perspectivas de ganhos salariais para os trabalhadores”. Complementa ele “Neste momento há uma pressão muito forte sobre o trabalhador. Fala-se até em redução de salários”.

O DIEESE, através do seu Sistema de Acompanhamento de Salários, acompanhou os cinco primeiros meses do ano e analisou o resultado das negociações salariais de 100 categorias em todo o Brasil, considerando os reajustes salariais de 2008 e 2009 destas mesmas 100 unidades de negociação.

A análise mostra melhora diante do ano anterior: se em 2008, 89% das negociações consideradas asseguraram pelo menos a recomposição das perdas ocorridas durante a data-base, em 2009, esse percentual subiu para 96% das negociações. Da mesma maneira o percentual de negociações com reajustes inferiores ao INPC-IBGE passou de 11% (2008) para 4% (2009).

Graças a teimosos trabalhadores que, no primeiro semestre, não escutaram Lula, nem o DIEESE, nem alguns lideres sindicais e foram a luta, conquistar ganhos reais acima da inflação e mais vantajosos que os do ano anterior, ainda sem maior reflexo de crise.

A análise dos números nos leva a entender duas coisas. Primeiro que no segundo semestre as negociações devem ser ainda mais favoráveis para os trabalhadores e até mais tranqüilas do que as do segundo semestre de 2008, pois os senhores do capital começam a divulgar a redução do tamanho da crise. E segundo que aprendemos com os companheiros trabalhadores de data base no primeiro semestre que o caminho é o da luta e do enfrentamento para se alcançar conquistas.

Os patrões e os banqueiros não poderão usar o argumento da crise financeira internacional para rebaixar nossas propostas. Até porque o setor financeiro, mais uma vez, se mostra camaleão: com inflação alta ou baixa, com crise ou sem crise, com sol ou chuva, eles sempre conseguem os mais altos lucros do planeta.

É hora de, como no primeiro semestre, fechar os ouvidos aos que não acreditam na capacidade e vontade de luta dos trabalhadores e enfrentar os banqueiros e partir pra cima por nosso reajuste e PLR dignos de nosso trabalho, com a valorização dos pisos e o fim das metas e combate ao assédio moral, ao mesmo tempo que se estabelece uma relação mais respeitosa e honesta com a sociedade, através da redução de tarifas bancárias e redução das filas para se melhorar o atendimento.

Nossa pauta já foi entregue há bastante tempo e os tubarões banqueiros tem tangenciado, enrolado e não trazem propostas concretas para a mesa. Neste momento de decisão os bancários e bancárias precisam entrar de cabeça na campanha salarial, com a marca da luta e vontade de garantirem direitos e ampliar conquistas. É preciso lutar, como na canção “Nas escolas, nas ruas, campos, construções, ... Caminhando e cantando e seguindo a canção, Somos todos iguais, braços dados ou não. Vem, vamos embora, que esperar não é saber, Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”

Entendemos que se combate a crise de frente, com geração de renda e valorização do trabalho, com um programa nacional de desenvolvimento. A proposta de reduzir salários e direitos é de quem aposta no pior, na recessão e em país dependente e fraco. É necessário fazer crescer o rendimento da classe trabalhadora e até reduzir a jornada de trabalhos do trabalhador. Dessa forma, se amplia o número de empregos e a renda dos trabalhadores. Assim os trabalhadores poderão consumir mais e fazer girar positivamente a roda da economia, em favor da sociedade.

* José Marcos de Lima Araujo, Marcão, é bancário do BB, secretário geral do Sindicato dos Bancários do Pará e Amapá, presidente da CTB Pará, e membro da direção plena da CTB nacional.

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