sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Considerações breves sobre a histórica greve do BNB




Geraldo Galindo*

A maior greve do BNB (Banco do Nordeste do Brasil) nos últimos anos deve ser avaliada pelos  aspectos econômicos e  organizativos e políticos, não devendo nenhum deles ser menosprezado ou sobrevalorizado. – eles guardam entre si uma relação dialética. Tratarei adiante mais do segundo ponto,  que a meu ver,  nos deixa  saldos e ensinamentos que serão bastante úteis em novos momentos.


No que diz respeito à questão organizativa e política podemos dizer sem medo de errar que construímos uma bela jornada de luta, atravessando obstáculos antes vistos como intransponíveis.  Isso só foi possível porque parcela considerável dos funcionários se conscientizou da necessidade do enfrentamento em novo patamar a partir de uma política adotada pelo banco de postergar indefinidamente antigas reivindicações.

O que verificamos nesse poderoso movimento foi uma verdadeira rebelião - uma mobilização impressionante deixou atônita a direção do banco e demonstrou o poder de fogo dos trabalhadores quando estes saem da letargia para o confronto. E não foi por menos. A greve que começou com a categoria unificada teve os momentos de retirada de segmentos que se sentiram contemplados ou não puderam resistir.  Os funcionários do BNB assistiram à saída dos bancários alternadamente  da rede privada, do Banco do Brasil, da CEF, do BASA,    não se abalaram e não se sentiram intimidados com o tradicional  jogo de pressão patronal. 

Tivemos no trajeto o deprimente episódio dos trânsfugas cearenses (os traidores da assembléia que encerrou a greve no Ceará) que em nada interferiu no movimento – ao contrário do que pensaram os seus ingênuos idealizadores. A propósito, as vitórias advindas da continuidade da greve, como se sabe, serão extensivas aos pusilânimes que se prestaram àquele vil e deprimente papel. Que eles reflitam sobre isso, ergam a cabeça, e em próximas oportunidades, se comportem como pessoas dignas,  honradas e respeitem seus colegas em luta.  Mesmo que se possa considerar pequenos avanços, os parasitas da luta alheia terão o direito ao abono e ao adiantamento da PLR, o que em tese, eles poderiam abrir mão, na medida em que aprovaram um acordo que não continham esses benefícios. Quanta vergonha!!!

Mas teve mais. O Banco em duas oportunidade vociferou em documentos que era “a última proposta”, achando que dessa forma desmobilizaria o nosso exército; suspendeu unilateralmente negociações marcadas, achando que nos venceria pelo cansaço; mandou propostas diretamente para a base tentando atropelar a direção do movimento,  pensando que esse contato "atravessado" surtiria efeito. Nada.

Algumas entidades pediram ao Sindicato dos Bancários do Ceará a realização de uma nova assembléia, mas este, com sua autonomia que deve ser respeitada, não o fez, mesmo quando o banco apresentou avanços em relação à proposta que eles já tinham aprovado. Quando resolveu fazê-lo, foi por conta de um abaixo assinado da base, e quando a sua realização era inócua pelo momento inadequado - a greve caminhava para o final.  Cabe registrar que a entidade trabalhou pela  greve desde seu início, mas pode ter falhado ao colocar em votação o fim da greve quando não havia proposta nova (na Bahia e em outros estados só votávamos as datas das assembléias seguintes) e também a votação poderia ser em conjunto com a Caixa, já que ambos viviam a mesmíssima situação. Mesmo com esses percalços, a greve se manteve firme e forte.

Podemos afirmar com segurança que hoje, mais que nunca, somos autônomos. Não dependemos de manter nossa luta por conta de funcionários do BB, CEF, BASA. Aquela cantilena de que só fazemos greve se a base do Ceará aderir  foi superada há tempos, e agora enterramos de vez a tal cultura, quando nossos colegas cearenses foram derrotados no "tapetão" na famosa assembléia, mas mesmo assim, nossa luta prosseguiu firme e vigorosa. Essa é  talvez seja nossa principal vitória nesse movimento: o Ceará entrando ou não, e saindo ou não durante a luta, isso não é mais nossa referência - eles que se liguem na luta de seus colegas dos outros estados.

Essa  experiência de luta que agora analisamos nos revela alguns aspectos positivos: 1 - Aquele surrado discurso de viés neoliberal  de que o instrumento da greve estaria  superado não se sustenta;  2 - O despertar da consciência da maioria dos funcionários não é apenas momentânea e por isso mesmo tem de ser levado como referência em próximas batalhas; 3 - O banco  foi obrigado a saber (e talvez já sabia) que tem em seus quadros uma enorme massa de insatisfeitos que precisa de respostas para suas demandas; 4 - Os companheiros que trabalharam durante a greve (não me refiro ao grupo dos 84 - estes podem ser caso perdido) viram que   o exemplo da luta produz resultados e em lutas futuras poderão estar ao nosso lado. Disse  uma colega do Piauí que  como os benefícios são extensivos a todos, o pagamento dos dias não trabalhados deveriam ser coletivizados/democratizados com estes colegas referidos.

Devemos ter em conta ainda que toda greve tem o seu momento de encerramento. Muitos companheiros, combativos e valorosos, achavam que podíamos continuar a paralisação - devemos respeitá-los. Duas assembléias ainda decidiram pela continuidade. Penso que no 33º chegamos ao limite - a partir daquele momento estava dado que dificilmente conseguiríamos avançar, em que pense eu considerar que aquela decisão do banco de ajuizar dissídio coletivo não passava de   uma inútil chantagem, que poderia inclusive alimentar o fôlego da luta. Uma pergunta:  houve mesmo o tal ajuizamento?

Por fim, acho que a Comissão Nacional, em momentos de campanha salarial, deve ter como prioridade absoluta o acompanhamento desse momento, tendo que desprezar quaisquer outros eventos - por mais importantes que sejam. Mesmo o banco tendo "atravessado" uma proposta "nova" aos funcionários, não houve a mobilização da Comissão para discutí-la e enviar encaminhamentos à base. As bases reagiram (corretamente)  por conta própria e  sem qualquer indicação de quem deveria fazê-lo.

No primeiro semestre do ano que vem teremos novo Congresso dos Funcionários do BNB. Os sindicatos de  bancários da Bahia, de Sergipe, do Maranhão, do Rio Grande do Norte e a  AFBNB já anunciaram que só participarão do evento se este levar em conta a democracia dos trabalhadores - o que significa dizer que os delegados devem ser eleitos em assembléias.  Caso se repitam episódios semelhantes aos do ano passado, quando no Ceará não houve assembléia e os "delegados" foram indicados por parte da diretoria, nós não participaremos e proporemos uma alternativa à atual Comissão Nacional, que deve ser eleita  com base na plena democracia, e não em em subterfúgios que forjam maiorias artificiais, que não representam efetivamente a maioria do funcionalismo do banco.

Caso o Banco resolva interferir, como vem fazendo, em eleições de entidades representativas dos funcionários - apoiando os que lhe são mais próximos -  , é bom que a diretoria saiba que essa intensa mobilização nacional também foi uma resposta a essas investidas. A luta valeu. Parabéns a todos os colegas que participaram ativamente da luta e a  todos os sindicatos.

*Geraldo Galindo é dirigente do Sindicato dos Bancários da Bahia e diretor da AFBNB

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