segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Não Atropele a Luta Coletiva

Luciana Pacheco*

Viver em sociedade é complicado e está cada vez mais com o aumento da concentração de gente, falta de estrutura, exigências da vida moderna. Mas a cultura individualista tem aumentado essa dificuldade mais do que os outros fatores.

Há uma frase de Sartre "O inferno é os outros". Confesso que não o li (espero ler um dia!), mas, do que li sobre, entendi que não dizia realmente que o inferno é os outros. Só que tendemos a pensar ou agir como se fosse, mas na verdade devíamos, entre outras coisas, perceber que o ser humano precisa da sociedade até mesmo para se reconhecer como ser humano.

Não vou me aprofundar em Sartre, até porque não teria como. Quero falar de hoje em dia, quando você é respeitado de verdade pela maioria de seus conhecidos se for ateu, agnóstico, espírita, budista, judeu, islamita, rastafári, seguidor do candomblé, crente, católico ou bruxo. Mas acredite em causas coletivas, vá ser sindicalista! Você é culpado, não sei bem de que, mas é! Há algo de estranho em você ou, no mínimo, algo capaz de gerar desconfianças. Você é um herege contra a hegemonia individualista.

"Algum proveito você está tendo disso!", "Ninguém faz nada de graça!" - te dirão isso na sua frente e pelas costas. O individuo não é mais criado para viver em sociedade. Antes haviam agremiações nas escolas, grupos de jovens nas igrejas, e diversas outros grupos que buscavam objetivos comuns desde a infância e juventude. Hoje só há serviços pagos.

O certo hoje é a disputa. A sociedade perpetua uma lógica de mercado que interfere cruelmente nas relações humanas. A competição está por todos os cantos. Não adianta ser bom, tem que ser melhor que os outros. Se os outros são o inferno, você é o céu. Pelo menos enquanto não estiver sozinho! Não importa tudo o que há de errado e injusto no mundo, o que importa é o objetivo de ganhar mais dinheiro, comprar um carro, uma televisão e um apartamento melhor, uma roupa daquela do shopping...Para isso você tem que chegar cedo e faz barbaridades no trânsito, afinal você é você, e o resto é o resto e você vai chegar primeiro. O que importa é que o trânsito ficou pior hoje porque tem gente se manifestando. O que importa é a moral que você vai fazer com o chefe e não uma tentativa de melhorarmos a situação pra toda a categoria ou pra toda a sociedade. Por isso, você mantém seu foco e não vê uma sociedade ao seu redor (Sociedade vem do latim societas, que significa associação amistosa com outros, existe?).

Por isso, na empresa pública em que sou empregada, onde temos certa estabilidade e que tem como meta ser uma das melhores empresas para se trabalhar, os colegas são, quase todos, gente boa que se esforça para ter uma convivência harmônica e agradável com os seus rivais, ops, colegas. Por isso, você pode pagar pelo "serviço sindical", como paga por outros, ou como paga impostos, para ter do que reclamar. Mas, fora isso, quer ser apenas informado sobre o que ocorre no movimento social "de massas" do qual você devia de alguma forma fazer parte. Por isso, sou tratada sempre bem (fora uma ou outra insinuação) enquanto só passo informações do interesse de todos; mas levo empurrões e vejo caras fechadas de pessoas que me dão boa tarde ou bom dia nos outros dias, mas que quando estou num piquete me olham como se eu fosse uma vilã com a qual qualquer diálogo pode ser perigoso.

Por isso alguém pode armar-se com o seu carro e me dar empurrões e, depois de sair, me sacudir e tirar da frente, ainda me dizer que fui eu a agressora, pois estava no lugar errado, acreditando na causa errada. Pois a verdadeira causa é cada um alcançar...o que mesmo? Bom, me desculpem aí por acreditar que podemos conseguir algo juntos, espero que ainda assim, ninguém passe por cima de mim.

*Luciana Pacheco é diretora da Federação dos Bancários da Bahia e Sergipe

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